Futuro da infraestrutura digital passa por investimentos e regulação flexível

Brasil possui ativos altamente competitivos, mas enfrenta gargalos, uma vez que a infraestrutura digital precisa ser expandida.

Brasília, 19/05/26 – O desenvolvimento econômico e social do Brasil nos próximos anos está intrinsecamente ligado à sua capacidade de modernizar e expandir sua infraestrutura digital. No Painel Telebrasil 2026, especialistas do governo, do Legislativo e do setor privado discutiram os caminhos para tornar o País um hub estratégico de dados, enfrentando desafios que vão desde a desburocratização até a segurança cibernética e a soberania nacional.

A abertura do debate foi conduzida por Tamara Oliveira, sócia-diretora de Forensic & Litigation da KPMG no Brasil. Ela destacou que o Brasil possui ativos altamente competitivos, com um mercado consumidor robusto e uma matriz energética estratégica, mas alertou para os gargalos. “A infraestrutura digital é um tema central para o desenvolvimento do País. Sem esse investimento, nada disso é possível”, afirmou, ressaltando a necessidade urgente de coordenação entre políticas públicas e estabilidade regulatória para atrair novos capitais.

Representando o Ministério das Comunicações, o secretário de Telecomunicações Hermano Tercius detalhou a visão estratégica do Executivo, que busca unificar as diversas iniciativas hoje dispersas. Ele anunciou a conclusão do Plano Nacional de Inclusão Digital (PNID), que foca em infraestrutura, letramento e segurança para atender aos 70% da população brasileira que ainda não possui nível básico no uso de ferramentas digitais.

“O objetivo é tirar burocracia, dar a ajuda do Estado onde a conta não fecha e sobretudo fazer com que as políticas públicas conversem entre si”, explicou Tercius. Além do PNID, o secretário destacou políticas específicas para cabos submarinos e data centers, visando criar um “cinturão de edge data centers” e dobrar a cobertura de conectividade em rodovias. Sobre os cabos submarinos, ele foi enfático: “queremos reduzir a burocracia para as empresas e viabilizar a construção de um cabo costeiro no Brasil”.

A posição do Legislativo foi trazida pelo deputado federal Juscelino Filho (PSDB-MA), presidente da Frente Parlamentar Mista de Telecomunicações e Soluções Digitais, que propôs uma visão de ecossistema construído por camadas – desde o acesso à rede até o armazenamento e a saída de dados via cabos submarinos – para garantir a soberania digital.

O deputado alertou para o risco de iniciativas desconectadas. “Infraestrutura digital nós construímos começando pelo começo. No Brasil temos o hábito de começar do meio”, disse, citando a importância de projetos como o Redata, que prevê a eliminação de tributos para a importação de equipamentos de data centers, e a renovação do Fust para a universalização do acesso. “Se não olharmos o ecossistema como um todo, corremos o risco de dar murro em ponta de faca”, completou o parlamentar.

Cibersegurança e IA

A segurança dos dados e o impacto da Inteligência Artificial (IA) foram pontos centrais na fala de Edson Holanda, conselheiro da Anatel. Para ele, não é possível dissociar a conectividade da segurança digital, sob o risco de expor toda a população a matrizes de risco sem precedentes.

Holanda apresentou dados preocupantes sobre o setor privado. “Setenta por cento das empresas não têm seguro contra ataques cibernéticos. Isso mostra que, sem um marco regulatório, não teremos um arcabouço para proteger empresas e usuários”, acredita. Ele defendeu que a regulação deve ser baseada em riscos e que a Anatel, pela sua maturidade, deve assumir um papel de liderança nesse cenário.

Mario Girasole, vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Institucionais da TIM, comparou a IA a tecnologias transformadoras como foi a eletricidade, sugerindo que estamos em um momento de transição que exige reflexões integradas, e não apenas movimentos regulatórios isolados. Ele advertiu sobre os perigos de intervenções artificiais no mercado e a necessidade de enxergar o ecossistema de forma holística. “Sou da ideia de que a agência deve ser equipada com instrumentos diagnósticos que abranjam toda a cadeia”, defendeu, ressaltando que o Brasil teve sucesso até agora ao não “desacoplar” os diferentes elementos da infraestrutura em suas políticas.

Os painelistas aproveitaram o debate para reforçar a necessidade de agilidade nas aprovações legislativas. Holanda reiterou que a Anatel está pronta para atuar como agência nacional de cibersegurança e autoridade de IA, dada a sua experiência técnica. “A integração de reguladores é uma condição sine qua non”, afirmou.

Sobre o atraso na tramitação do Redata no Senado, Juscelino Filho demonstrou otimismo, apesar do ambiente político conturbado. “Nossa expectativa é destravar este tema o mais rápido possível, retomando o diálogo e votando logo esse projeto”, afirmou. Hermano Tercius reforçou o apelo ao setor privado e ao Congresso para que as políticas de cabos e data centers saiam do papel ainda este ano, deixando um “legado para o setor para os próximos cinco ou dez anos”.

Juscelino Filho comemorou os R$ 40 bilhões investidos em 2025, impulsionados pelo 5G e pelo uso do Fust. Segundo ele, o desafio agora é manter esse ritmo. “O nosso papel no Congresso é atuar para ajudar a fomentar para que isso continue nessa velocidade”, garantindo que as novas tecnologias estejam, de fato, à disposição da população brasileira.

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