IA e conectividade ditam o ritmo da nova orquestração digital

Disseminação de aplicações de IA promete reposicionar operadoras – e todo o ecossistema de telecomunicações – como orquestradores de serviços, abrindo novas oportunidades de monetização.
Brasília, 19/05/26 – Denominado “IA e conectividade: o que vem pela frente”, o primeiro painel realizado nesta terça-feira (19) no Painel Telebrasil 2026, reuniu lideranças do setor de telecomunicações e órgãos reguladores para debater o papel transformador da Inteligência Artificial (IA) nas redes e nos modelos de negócios. Sob a moderação de Claudia Viegas, sócia da Ecoa Consultoria Econômica, o debate evidenciou que o setor não se vê mais apenas como um provedor de infraestrutura, mas como um orquestrador essencial de um ecossistema complexo e dinâmico.
A abertura das discussões coube a Carlos Baigorri, presidente da Anatel, que destacou a preparação da agência para a evolução da IA. Baigorri enfatizou que a regulação deve ser cautelosa para não se tornar obsoleta rapidamente. “A Anatel tem se preparado para acompanhar basicamente a evolução da IA no contexto de telecom. Temos feito capacitação, debates com academia e preparado estudos para isso. Esperamos do legislativo uma lei que traga diretrizes e um marco regulatório”, afirmou.
Para o presidente da agência, o sucesso da Lei Geral das Telecomunicações serve como lição: “A Lei Geral das Telecomunicações é um exemplo de lei que se mantem atual, mesmo depois de 30 anos. Tentar regulamentar tecnologia é um erro; não acredito que faça sentido. Precisamos regular mercados e entender como a tecnologia vai afetá-los”, disse.
Ricardo Hobbs, vice-presidente de Estratégia e Assuntos Regulatórios da Vivo, pontuou a posição estratégica das operadoras na captura de valor da inteligência artificial. “A capacidade de a indústria ser um enabler disso a coloca em uma posição estratégica e diferencial de captura de valor”, explicou. Hobbs trouxe para o centro do debate a necessidade de segurança jurídica e o equilíbrio nos investimentos de rede, mencionando a assimetria gerada pelas grandes empresas de tecnologia.
“É o momento de o setor entender como monetizar isso em termos de serviço. Há um aspecto regulatório, que deve privilegiar a segurança jurídica e a inovação. Precisamos de um marco que entenda o que acontece no mercado e corrija anomalias reais. Temos vários exemplos, como toda a discussão do fair share, que levou a uma situação assimétrica em que poucos players usam mais de 50% das redes. Eles deveriam participar dos investimentos nessas redes”, defendeu o executivo.
Orquestração
Rodrigo Duclos, CDO da Claro, reforçou que, em se tratando de IA, o papel da indústria vai além da transmissão de dados. Para ele, as operadoras são as orquestradoras naturais dos novos serviços que a IA generativa ainda está definindo. “Não se trata apenas de infraestrutura. Acho que a indústria de telecom como um todo também é orquestradora desses novos serviços. A IA está sendo construída. As aplicações e o jeito como vamos usar a Gen IA ainda estão indefinidos”, afirmou.
Duclos mostrou-se otimista, mas alertou contra o excesso de normas: “Nosso papel não é só de transmissão de dados, mas de construção de valor. Nesse jogo, há a oportunidade de sermos grandes orquestradores desses serviços, permitindo às pessoas criar novos negócios. Sou um grande otimista do cenário e acho que estamos convergindo para uma tempestade perfeita, que não deve ser interrompida por excesso de regulamentação”, defendeu.
Representando a visão da indústria, Diego Aguiar, Head de Vendas no Brasil e IoT da Qualcomm, destacou o conceito de “neo cloud”, em que a IA deixa de estar apenas na nuvem centralizada e passa para a borda (edge). “Temos visto a descentralização dos dados de IA na ponta, no edge, em devices pessoais e infraestruturas próprias, é o neo cloud”, disse.
Aguiar também enfatizou que as operadoras possuem as competências necessárias para resolver o baixo retorno de investimento (ROI) que muitas empresas enfrentam com IA. “Mais de 70% das empresas que usam IA não conseguem ter retorno de investimentos diretos. Aqui entra a orquestração do ecossistema, a distribuição geográfica e a visão e construção de dados em longo prazo, que são três vocações das operadoras”, lembrou.
Já Hugo Baeta, diretor geral da Nokia no Brasil, comparou a chegada da IA aos grandes marcos do setor, como voz e vídeo. “A IA não é simplesmente mais uma tecnologia chegando, ela inaugura um novo super ciclo em nosso mercado, depois de voz, dados e vídeo. Ela vai exigir uma transformação ao longo das próximas décadas”, disse.
Baeta detalhou os desafios técnicos, como o tráfego de “IA agêntica”, que exige interações constantes com data centers dispersos e menos previsibilidade de dados. Segundo ele, a IA será usada tanto para eficiência interna quanto para novos modelos de receita. “A IA será aplicada para tornar as redes mais eficientes. Outra questão é a monetização e como utilizar a emergência da IA, não apenas da infraestrutura como transporte, mas também como suporte de mecanismos de inferência próximos da borda.”
Infraestrutura
Os painelistas também focaram em questões estruturantes. Baigorri reafirmou que o Estado não deve ser voluntarista: “Se tentarmos regular tecnologia, sempre ficaremos atrás. Agora, se regularmos mercado, como a Anatel tem feito, tenho certeza de que estaremos preparados”, disse, defendendo que o papel do Estado seja minimizar barreiras de entrada e deixar o mercado se autorregular pela oferta e demanda.
Hobbs trouxe à tona problemas crônicos de infraestrutura no Brasil, como a cobertura em rodovias e o uso de postes. “Temos 50% das rodovias sem cobertura e o Estado deveria definir uma política pública para isso. Postes também são uma temática fundamental. Eles precisam de redundância e segurança e o setor já tem uma proposta feita”, alegou, lembrando que estes temas devem ser solucionados antes de se pensar na infraestrutura necessária para a IA.
Duclos defendeu o “direito ao erro” como motor da inovação. “Precisamos de liberdade ou espaços para fazermos experimentação e as empresas aprenderem com isso. A capacidade de testar, errar e aprender deve ser o princípio”, defendeu. Já Diego Aguiar apontou uma mudança radical na unidade de medida do setor. “Se olharmos 20 anos para trás, a unidade estrutural saiu de voz, foi para dados e está indo para tokens. Essa perspectiva muda completamente o que virá.”
Por fim, Baeta vislumbrou o futuro da conectividade com a IA nativa. “O passo seguinte, que virá para o final da década e já pensamos em desenvolver isso, é o 6G, que já virá com a IA nativa. Temos uma fase de monetizar o 5G e ganhar eficiência e, mais para frente, aproveitar estas novas oportunidades”, encerrou.








